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CASA DO CORAÇÃO


INTITUTO NEMESIS PALESTRA ABERTA EXPRESSÃO MITICA DO INCONSCIENTE - ORIXÁS



Escrito por FRANCISCO MASAN às 19h31
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CURSO DE INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS NA ABORDAGEM JUNGUIANA - INSTITUTO NÊMESIS



Escrito por FRANCISCO MASAN às 23h33
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INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA JURÍDICA - INSTITUTO NÊMESIS



Escrito por FRANCISCO MASAN às 23h31
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CURSO DE EXTENSÃO EM TEORIA DE C.G.JUNG - INSTITUTO NÊMESIS



Escrito por FRANCISCO MASAN às 23h17
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PONTO CEGO

 

Ele tremula sob o fio de uma indignação teimosa. Os pensamentos lhe fluem através da cabeça e, não raro, tente compreendê-los, o curto-circuito se refaz, como um redemoinho ordinário de algozes e vilões, em meio ao verbo desentendido. De maneira peculiar, a coisa se repete e, ao que parece, tem sido muito razoável culpabilizar terceiros pelos malogros e desditas. O espelho, no entanto, tem duas faces, e é com ele que o diálogo metafórico acontece aqui:

- Eu fui por demais ofendido, disse ele, entre rancoroso e vitimizado. Toda a minha afabilidade e meu carinho, minha atenção e meu cuidado não foram valorizados e eu acho isso um absurdo! Pior que isso, estou transtornado pela idéia de que não souberam reconhecer a digna confiabilidade de que sou portador e fui alvo da dúvida e da especulação. Logo eu, tão correto e pleno de ética, como poderia ser que alguém não enxergasse em mim o dourado estandarte dessa retidão?

- É claro, ele prossegue – que isso não passou em branco, pois tamanho despautério não poderia ficar assim. Porém, vou logo avisando, antes que você me julgue: eu me conheço muito bem e sei como posso ser grosseiro e explosivo com os outros se eu não me controlar. É por essa razão e pelo fato de eu não suportar ser cruel com ninguém que eu me calo e me torno ausente. Acho que não sentir nada seria cobrar demais de mim, não é?

- Eu apenas fico quieto, calado e silente. Não retruco, não respondo e você ainda me diz que estou de mau humor. Ora, sou humano e daí? Tenho direito de estar mau humorado. Quando eu fico agitado e eufórico (claro, quando as coisas acontecem do jeito que eu esperava!) você também não gosta. Por que ninguém pode entender que eu funciono desse jeito? Pode até ser que eu não discrimine muito isso e meu estado se espalhe um pouco ao meu redor, mas acho que os outros deveriam entender que eu sou assim.

Eu, inclusive, – continua – tenho meu lado hilário, brincalhão e sarcástico. Nunca perco uma piada e acho que você deveria compreender isso e não levar a sério porque eu brinquei com algo seu. As pessoas poderiam deixar de ser infantis e se zangarem com tudo ou ficarem me reclamando somente por causa de uma brincadeira, ou porque eu não fui “sensível” com as coisas delas. Como eu vou sentir o que elas sentem? Não é tudo o que me toca, não, sabe? Ninguém vai me colocar na cadeia por causa disso. Aliás, não sei ser uma cascata de sensibilidades a não ser quando você não souber me entender e corresponder de volta na hora em que o meu bom humor retornar, pois, afinal de contas, eu também preciso de atenção. Detesto gente fria e detesto também quem argumenta demais comigo; por isso que me calo. Para quê conversar se os outros sempre acham que têm razão, não é? Acho uma perda de tempo e não perco a minha pose de silente, porque uma hora dessas vão entender que eu estou certo em não brigar. Afinal, tenho tanta experiência sobre muitas coisas, que fica chato tentar lhe convencer, pois você gosta de ter a posse da verdade. Então, deixo para você o lugar de rispidez, dramaticidade e grosseria, coisa que sei fazer muito bem.

Nesse momento o espelho lhe atalhou a verborragia, interpelando: - Esta é a fala da sombra e do complexo e eu fui, diante de você, por todo esse tempo, o seu único reflexo.

É natural entendermos que todos possuam uma cota de razão em suas falas e convicções. O ego tomado pelo complexo externa, de forma distorcida, a busca de curar-se e vê no mundo o seu opressor e inimigo, nunca em si mesmo. Realizar o inconsciente passa pela condição de iluminar não somente a sombra, mas também o ponto cego, aquele lugar de nós que todos vêem, exceto nós mesmos. Enquanto isso não acontece, flagrados seremos nesse magnetismo psíquico que, descaradamente, tentará nos desmascarar ou, se for o caso, viveremos em negação até que ela própria nos torne empobrecidos de qualquer empatia, inviáveis na generosidade e oxidados nos sentimentos não expressados com clareza e direção.

Se você tem dúvida disso, procure pessoas sinceras, que realmente lhe conheçam e escute, sem retrucar, o que elas têm a dizer sobre como lhe vêem em seus comportamentos. Eles poderão não alcançar suas convicções e intenções, mas verão os fatos, sobretudo os recorrentes. E, se você puder ver e refletir sobre isso também, pode ser que uma fresta se abra e a cegueira comece a desvanecer, lhe trazendo a lucidez para perceber que você não é o centro do universo.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h29
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MOVIDOS PELA FALTA

 

Eles estavam cansados de não serem de ninguém e, por esse motivo, resolveram dar uma oportunidade ao destino, conhecendo-se mais. Não fora paixão, não fora amor, nem mesmo um tempero apimentado de tesão que os reuniu. Eles se escolheram por outros motivos. Cada um parecia, aos olhos do outro ter qualidades supostamente elegíveis para se desejar em alguém com quem se queira relacionar. Era isso e a solidão.

Os dias foram passando, penetrando no outono das emoções e tornando mais rarefeito o oxigênio, vital para a sobrevivência. Não havia brilho e nem faísca. Ambos, muito embora juntos, sentiam-se compostos e incompletos ao mesmo tempo. Parece que tudo aquilo não passara de uma escolha apolínea que, desprovida de água suficiente, foi se tornando ressequida e craquelada. Eram tão recentes, enquanto casal, no entanto sentiam-se como se estivessem juntos há anos, já corrompidos pelo cotidiano desencantador e automático. O silêncio brotava de seus olhos de maneira abundante, derramando-se, incomodado, por onde estivessem. Isso e o medo de perder o quase nada que se tinha.

E foi desse jeito que, um dia desses, um e-mail caiu na caixa de entrada, dizendo mais ou menos assim: - Não tive coragem para te ligar. Na verdade, já não sabia direito o que conversar com você há muito tempo e sentia um nó na garganta por não conseguir por em palavras o que realmente se passava comigo e conosco. Então resolvi lhe escrever.

- O cansaço de estar só já me pesava nos ombros por tempo demais e, quando lhe conheci, imaginei que você poderia ser o fim desses dias silentes e dos finais de semana descoloridos e sem convites. Não lhe acho uma pessoa ruim, ao contrário, reconheço em você inúmeras qualidades que um ser humano deve ter. Acontece que não rolou, entende? Apenas achamos que ia dar certo e nos deixamos levar por isso. Gostei de você e achei que poderia olhar a pessoa e deixar de lado todas as outras coisas que também gosto e procuro. Achei que poderia passar por cima de mim para que as coisas dessem certo, talvez porque, no fundo, eu sempre tenha me culpado por não ter dado certo com ninguém. Achei que fui exigente demais, tolerante demais, independente demais ou moldável em demasia. O fato é que eu já tentei de tudo e não tem uma receita pronta prá isso, sabe?

- Fomos nos conhecendo e, todavia, a gente tivesse coisas legais, eu me via tão diferente de você em tantos sentidos, que cheguei a me pegar lhe criticando repetidamente sobre as coisas das quais não gostava ou aceitava, a ponto de me tornar uma pessoa chata e também sob a possessão da iludida crença de que eu moldaria você para que você viesse a ser o seu potencial ou o meu sonho. Mas, me enganei feio... Você tem personalidade própria e eu estava tentando enganar a minha para fazer de conta que não me importava com as nossas diferenças; só que eram diferenças que, para mim, não era possível ultrapassar, não por má vontade, mas porque eu iria me violentar e infelicitar mais e mais, fazendo de conta que estava investindo em nosso futuro. No fundo acho que você nunca entendeu bem o que eu queria expressar, até porque, para você tudo parecia ser muito natural. Não me senti tendo a Alma tocada e não percebi sensibilidade em você para acolher quem sou e como vejo as coisas. Também não houve diálogo entre nós com um dicionário que eu soubesse interpretar, como parece que nunca me fiz entender direito.

- Por mais que me esforçasse, você sempre tinha algo para discordar e detinha a palavra final, ao invés de apenas ouvir ou deixar prá lá, sem precisar vencer uma disputa... Isso me desencantava profundamente, pois naqueles instantes me sentia tão só como sempre estive. Sabe como eu descobri isso? Observando pessoas que se gostavam naturalmente e que queriam muito estar umas com as outras, mesmo com brigas e divergências. Elas não me pareciam protocolares, mas sim cheias de uma intensidade que nunca senti entre nós. Até em seus silêncios eles se comunicavam com os olhos porque havia afinidade real.

Acho que somos pessoas ideais, para pessoas parecidas ou que gostem realmente do jeito que nós somos. Não quero estar com alguém sem sentir prazer com isso, imaginando que depois vai melhorar. É por isso que não quero mais viver com você algo que não traz Vida para mim.

Um misto de susto e decepção perpassaram por instantes aqueles olhos. O clique de resposta foi acionado com a seguinte frase: Obrigado por ter feito por mim o que não tive coragem e capacidade de fazer por você.

Penso que uma pessoa pode até ter todos os requisitos, mas se não toca sua Alma pode ser que nunca desperte o seu Amor. Alguns de nós, entretanto, preferimos nos enganar ou aceitar o título protocolar de "ter" alguém, passando a vida ressecados de felicidade e pobres de nós mesmos. Escolhas movidas pela falta geram mais falta.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h28
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TRIÂNGULO SOMBRIO

 

Ele transitava por entre três vértices: ela, a outra e sua confusão. Os relacionamentos humanos contêm naturalmente a sua gama de complexidade. O par formado entre dois seres já carrega consigo atração e repulsão, em diversos níveis. Um terceiro vértice potencializa a divisão, muito embora, sob certo aspecto, componha a tentativa enviesada de equilíbrio proposta pelo complexo e pela dificuldade de integração da sombra e das contrapartes sexuais inconscientes.

Gostaria de trazer esse tema, mas não para comentar em torno da traição; tenho em mente outro aspecto inerente à questão que gostaria de explorar em meu raciocínio: uma faceta do triângulo na psiquê masculina tomada pela Anima. Penso em diversos casos que acompanhei e alguns detalhes de suas dinâmicas chegam à minha mente para compor esse pensar. O enamoramento do começo despistara o olhar crítico e as teias movediças iam se encorpando mais e mais. Entretanto, o tempo traz de volta a subjetividade natural do indivíduo e, aos poucos, ele vai voltando a ser ele mesmo, a ver mais, a se incomodar mais.

O controle feminino recebe a capa lustrosa das leis herdadas e da moral, nos formatos sociais de relação e ele precisa obedecer. Seu trajeto deverá ser estritamente relativo ao trabalho, à família e às coisas do casal. Ele cedeu por muito tempo e, tardiamente, deu-se conta do ressequido cárcere em que se viu privado de seus amigos, seus momentos, sua individualidade, claro que tudo em nome do amor, do casal e da família. Mas, no fundo, não era exatamente assim que ele se sentia e desejava. Atendendo ao chamado da contenção e do medo, amoldou-se anuladamente a um formato que pertencia ao outro e nunca soube discordar ou expressar diretamente seu desejo.

Certamente, podemos hipotetizar que essa estrutura de mente poderia carregar consigo alguns aspectos importantes para marcar sua sujeição. Uma autoimagem e autoestima comprometidas, a dificuldade de impor limites e tomar decisões, a inabilidade em fazer cortes e expressar sua vontade, o medo da perda e da solidão, os sentimentos de culpa. Aspectos possivelmente construídos através de um complexo materno negativo, onde esse filho desenvolveu necessidade de aprovação constante, muitas vezes com um duplo vínculo com a mãe e uma figura paterna isenta de força, também dominada por ela e, portanto, inerte. Da mãe devoradora e potente derivou uma anima semelhante, projetada na esposa que o domina e substitui a mãe em alguns aspectos, reafirmando a impotência do filho.

Um belo dia, ele se depara com alguém diante de quem consegue se expressar com naturalidade e leveza e subtrai-se a um envolvimento que, antes de qualquer coisa, é a sua forma inconsciente de recuperar o poder perdido pelas vias da transgressão conjugal. Logicamente, que não devemos desconsiderar o desgaste acumulado pelo sentimento de submissão e raiva ao qual se rendeu por não incorporar na consciência a virilidade necessária para definir claramente seu espaço. É como se esse psiquismo estivesse possuído por aquela anima que, ao tempo em que lhe resgata o poder, lhe escraviza no esconderijo da covardia e da confusão, incapacitando-o de escolher.

Deparamo-nos com um ego cuja estrutura fragilizada sucumbe ao medo de perder algo que já não tem e calcula suas escolhas pela régua desse medo, preferindo manter tudo sem possuir nada por inteiro e sem estar integralmente em nenhum dos lugares. Todavia, escolher tanto é perder quanto é ganhar. Sem escolha, o indivíduo se vê aprisionado, não mais nas três pontas do triângulo, mas no desejo de retê-las todas para sentir-se seguro, meio dentro e meio fora, sem ser feliz, sem levar felicidade a ninguém e sem resolver sua angústia.

Quando flagrado em suas múltiplas pistas, entra no lugar de marido culpado que tudo quer fazer para sanear o casamento e tende a submeter-se às regras ainda mais duras da esposa ferida. Esta, por sua vez, não tem fibras para sair de um casamento destroçado e se mantém dentro dele, compensando seu sentimento de fraqueza interior através da punição constante do marido, da culpa relembrada a todos os instantes e da impossibilidade de entrega. Diante dessa pressão, ele compensa o peso, resvalando nos braços da outra e permanece no limbo de não saber qual escolha fazer, querendo garantias de sucesso ilusórias, sem enxergar claramente que algo já havia desandado há muito tempo. Ambos estão juntos e separados pelo mesmo motivo.

Vale dizer que não exercemos aqui nenhum juízo de valor e nem de caráter. Entretanto, diante da delicadeza dessas questões, entendemos a necessidade de integrar a sombra escondida nas cobertas alheias, pois ambos os vértices representam tensões importantes para esse ego. Uma lhe provoca a entrada no exercício do masculino e o outro representa os aspectos projetados que ele ainda é incapaz de perceber e vivenciar em si mesmo de maneira direta. A via da transgressão é a sua porta de saída, mas também sua entrada no labirinto. Ele poderá sustentar por muito tempo ou poderá ser deflagrado pelo próprio inconsciente, que sempre trata de deixar rastros para ser descoberto e ter que lidar face a face com os incômodos e as questões que nunca soube abordar. Aprofundamento requer restrição e escolha, da mesma forma que acatar-se e respeitar-se passa pelo ato de saber demonstrar ao outro até onde ele pode interferir em sua vida, quando você assim o permitir.

Silêncios forçados produzem a bactéria psíquica do desafeto e do rancor, levando o indivíduo a contrabalançar isso em ações passivo-agressivas, em ataques ou em atos clandestinos. Diante do triângulo sombrio, é preciso trazer a sombra à tona para educá-la e dar-lhe expressões sadias, criando quaternidade e integrando o bom e o ruim que vemos e buscamos em nós mesmos.

Qualquer escolha tem suas consequências. Amadurecer também implica em assumí-las, aprendendo com elas e definindo para si mesmo que linha de vida você deseja adotar. Aprender a opor e a confrontar é essencial nesse processo de fixação da individualidade para além daquilo que os outros pensam sobre nós ou querem que façamos. Mais que isso, resta-nos o fato de que é impossível não escolher. Quando não fazemos isso da forma adequada, a Vida o faz com a potência necessária para nos retirar da inércia.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h28
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JORNADA HERÓICA

 

As histórias a respeito de heróis são profundas e eternas e, geralmente, ligam os nossos anseios, desgostos e paixões às experiências daqueles que vieram antes de nós, de tal forma que podemos absorver algo a respeito da essência do significado de ser humano. Além disso, nos sinalizam sobre de que forma estamos imantados aos grandes ciclos do mundo natural e espiritual. “ A história de sua origem é miraculosa” , diz Jung – “ As situações estranhas que acompanham o nascimento e a concepção de um herói simplesmente fazem parte de seu mito [...] o herói não nasce  como um simples mortal, porque seu renascimento representa um renascimento a partir da mãe-esposa [...] ele tem duas mães”. O encontro da nossa ligação com esses padrões eternos proporciona-nos um senso de significado e importância até mesmo nos nossos momentos mais penosos e alienados, recuperando, de certo modo, a dignidade da vida.

Nas histórias de heroísmo, encontramos um modelo para aprender a viver. A busca heróica implica dizer sim a nós mesmos e, ao fazê-lo, tornarmo-nos mais plenamente vivos e atuarmos de forma mais eficiente no mundo. Podemos dizer que a jornada do herói consiste primeiramente na realização de uma caminhada para encontrar o tesouro representado pelo nosso verdadeiro Self e, em seguida, na volta ao ponto de partida para dar nossa contribuição no sentido de ajudar e transformar o “reino”, resultando daí a transformação de nossa própria vida. Apesar de a jornada estar repleta de armadilhas e perigos, ela traz consigo a recompensa de sermos bem sucedidos no mundo, de alcançarmos o conhecimento dos mistérios da alma humana e da capacidade de encontrar e expressar a singularidade dos nossos dons.

No mito clássico, a saúde do reino refletia a saúde do rei ou da Rainha. Quando o governante era ferido, o reino transformava-se numa terra devastada. Era, então, preciso que um herói (ego) empreendesse uma busca, para resolver os problemas do reino.

É por isso que o mito do herói é tão valioso no mundo contemporâneo, o qual une as pessoas de todas as épocas e lugares. Tal como os heróis de outrora, nós contribuímos para restaurar a vida, a saúde e a fecundidade desse reino, como um benefício oriundo dos frutos da nossa jornada pessoal. O heroísmo consiste não apenas em encontrar uma nova verdade, mas também em ter coragem de agir de acordo com essa visão. Trata-se de uma jornada cíclica, onde o final feliz ou o final da missão tem duração relativa e finita, para logo recomeçar numa outra busca. Este padrão não é linear nem circular, mas em espiral e, muito embora a jornada nunca seja interrompida, existem momentos significativos em que os fatos acontecem por conseqüência da nova realidade que encontramos. A cada recomeço, é possível perceber-se que ele se dá num outro nível, cuja trajetória nos levará a um novo tesouro, diferente do anterior. 

O percurso padrão da aventura mitológica do herói é uma ampliação arquetípica da fórmula representada nos rituais de passagem: separação-iniciação-retorno – os quais podem ser entendidos como a unidade nuclear deste monomito. Assim temos uma série de exemplos interessantes: Prometeu foi aos céus, roubou o fogo dos deuses e voltou à terra. Jasão navegou por entre as rochas em colisão para chegar a um mar de prodígios, evitou o dragão que guardava o velocino de ouro e retornou com ele, assim como com o poder de recuperar o trono, que lhe pertencia por direito. Enéias desceu ao mundo inferior, cruzou o horrendo rio dos mortos, atirou um bocado de comida embebida em uma substância calmante ao cão de guarda de três cabeças, Cérbero, e, finalmente conversou com a sombra de seu pai falecido. Tudo lhe foi revelado: o destino dos espíritos e o de Roma, que ele estava por descobrir: e, com essa sabedoria, ele poderia evitar ou enfrentar todas as provações. Retornou , passando pelo portão de marfim, ao seu trabalho no mundo.

 

Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes. Muito embora sejamos heróis em todas as etapas da jornada, o modo como definimos e vivenciamos o heroísmo é influenciado pelo guia que estiver mais ativo na nossa vida. Na figura do herói se projeta a transcendência do Self o que o torna supra-humano, dotado de deidade. Como os guias são verdadeiramente arquetípicos e, por conseguinte, existem como energia na vida psicológica inconsciente de todas as pessoas de todos os lugares, eles existem tanto dentro como fora da alma humana. Eles vivem dentro de nós e, o que é mais importante, nós vivemos dentro deles.

 



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h28
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PROBLEMA DE CONEXÃO

 

Uma sombra agigantava-se nos derredores daquele reino. Os murmúrios nas tavernas traziam a fala de que uma fera transitava, insaciável, pelos becos e ruelas. Entre uma caneca e outra de cerveja bruta, um silêncio menos que momentâneo perpassava o ambiente para logo ser devorado pelas distrações das horas. Por certo, a multidão sabia bem do que se tratava, mas tocar no assunto era, por demais, embaraçoso para quem ousasse e era melhor fingir que nada acontecia.

Protegidos pelas muralhas da vila, eles tentavam resguardar-se de tocar o vento gélido e a floresta espinhosa, sob o pretexto de esgueirar-se das maldições folclóricas em torno do mal que ali residia. Entretanto, o negado penetrara sorrateiramente em suas vidas, deliberadamente consumidas por quereres comezinhos e fugazes. A primeira pessoa do singular era muito praticada, mesmo quando disfarçada de plural. Talvez já não houvesse máscaras suficientemente convincentes para maquiar a presença inequívoca da ausência...

Os males de nosso século têm sido nominados ricamente pelas mais abastadas correntes do pensamento: depressão, medo, estresse, desamor, etc. Pensar sobre isso parece ajudar o ser humano a tentar se decifrar no meio de tantas confusões, sobretudo aquelas que nascem de dentro da alma. Não são poucas as queixas de que somos testemunha em torno das faltas humanas, mormente o coletivo produza compensações, na tentativa de encarcerar nos pântanos dos seres, as suas questões mais rudes e cruas.

Sem pretensões a trazer novidades, quero reflexionar sobre um desses temas, tão popular e tão pouco enfrentado, a não ser nas formas compulsórias impostas pelas circunstâncias e, ainda assim, nós outros, como encarcerados em seqüestro, lhe buscamos escapar a cada brecha, tristemente enlaçados de volta às suas masmorras ou mariposeados no fulgor das gaiolas brilhantes e sedutoras das coisas douradas e distraídas.

Encaro a solidão como um sentimento sofrido pela dificuldade de viver em nossa própria presença. Não obstante, considero também que a nossa inabilidade em conectar com a vida e os seres, deflagra nossa pobreza erótica, em nossa tíbia condição para empunhar um arco e flechar. Então, me parece que a solidão também é dúbia. Somos solitários por não criarmos laços reais e vivermos num vazio interno destituído de sentido e também criamos fuga da solidão, posto que, incapazes de alcançar coragem para enfrentar sua suposta monstruosidade, nos desencontramos de nós mesmos, sem lembrar que somos os mais perenes companheiros em nossa própria jornada.

Isto posto, cabe-me supor que posso ser tão desconhecido de minha presença, que permaneço um estranho em minha vida, apenas conhecido de minhas rotinas, minhas molduras e meus medos. E se não me revelo nem para mim, em minhas melhores e piores facetas; se não consigo conviver comigo, logo trato de ser para o outro uma imagem, pelo menos aceitável, muitas vezes banalmente feliz, como nas fotos e posts das redes sociais, onde quase tudo simula a perfeição, não fora pela distância cibernética que separa o meu computador do seu.

Essa reflexão, contudo, não responde ao vácuo formulado pelo sentimento de solidão. Não é da ordem da presença do outro, pois isso, por si só, não sacia a alma. Não é do âmbito da ausência, pois esta apenas revela um vazio pré-existente. Suponho que somos seres tão apaixonados pelo ideal que nos desapaixonamos dos seres e da vida como eles podem ser. Supostamente, então, falta-nos amor e paixão pela vida em si e por nós mesmos. Vale ressaltar que tendemos a nos apaixonar pelo que não temos e não somos e desprezamos o que é nosso; a falta desse toque torna insossa a nossa história. Nos apaixonamos também pelo passado, pelo futuro; pelo que nunca foi e pelo que poderia ter sido. Apaixonados e cegos, nos movemos por um desejo frustrado que descolore a nossa vida e esquecemos de fazer dela o que é possível nas pequenas coisas que compõem a simplicidade da felicidade, engolfados da movediça ilusão de que a vida do outro (e com o outro) é melhor. Remeto-me novamente a Eros que, incumbido por Afrodite enciumada (em seu aspecto sombrio e aquoso) a fazer com que Psiquê se apaixonasse pela mais vil criatura do mundo, fere-se em sua própria flecha e toma-se de amores por ela, seqüestrando-a. Por inabilidade, Psiquê perde seu amor e é submetida a duras provas para reconquistá-lo...

Solidão não é especificamente a ausência do outro em nossas vidas, mas a ausência de um Eros capaz de nos vincular apaixonadamente a nós, às coisas e também ao outro. É também uma necessidade basal de sermos amados e pertencermos a algo ou alguém. O psiquismo, na tentativa de se auto-regular diante disso, por vezes impõe tarefas e ‘provas’ para que o ego reencontre conexão e saia de seus processos de isolamento, sabotagem e auto-destruição na maneira com que nos relacionamos em amplo sentido.

Solidão e relação são inseparáveis. Um é a ausência da troca; o outro a sua presença, no nível em que for possível. Relação não dissolve solidão se não houver genuína gratificação, razão pela qual não devemos nos contentar com mediocridade e fantasia. Tanto uma quanto a outra têm um papel a cumprir em nossa individuação, devendo alternar-se sadiamente. Construa amores verdadeiros, genuínos, recíprocos e fiéis, começando por você mesmo e com tudo aquilo que lhe trouxer um convite saudável. Deixe as coisas irem e virem, criando postura psíquica de desapego grato e, lembre-se: a solidão é um processo típico a todos nós. Por mais amados e queridos que sejamos, haverá situações em que, inevitavelmente, ninguém poderá estar conosco, ainda que deseje.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h27
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PROSSIMA FERMATA

 

Ele caminhou tão distraído por entre o tempo das coisas que não percebeu o final de mais um ciclo. Os sonhos perpassavam-lhe pelos olhos, um a um, não somente os realizados, mas também os adiados, os perdidos e os insatisfeitos. Quase como um tropeço, ele caíra em si, face o despertar das horas. Em breve badalariam as cordas, como se fossem o prenúncio daquele vácuo de esquecimento.

Os sons na calçada iam e vinham e ele, aturdido, tentava, sem efeito, recompor-se. Sua vitalidade estava no fim, como se escorresse por entre os dedos as próprias gotas da vida na forma de areia e água. Já não havia mais tempo e, em breve, nem mais espaço haveria...

Olhar esgazeado, fitava os transeuntes descaminhados e despercebidos de seus rumos, tomados pela azáfama daqueles chamados infindos. Quase com um olhar onipotente, fora apaziguado pelos alentos derradeiros e tomava-se de esperança pelo seu sucessor. Ele sabia, no fundo, que muitos se lembrariam dele quando partisse e que outros tantos fariam de tudo para esquecê-lo. Sabia também que haveria aqueles que se fariam de tolos, na insossa posição da mediocridade.

Entretanto, ele carregaria consigo uma bagagem tão extensa, cabível apenas nas sinapses universalizadas do arquétipo. Tão logo se fizesse a hora, como numa linha de trem, chegaria o momento de descer para não retornar mais... Assim são essas coisas: num instante você está aqui e no outro não.

Isso me faz recordar as rotas que pegamos por hábito. Tenho a sensação que, em muitos casos, nossas vidas são uma repetição de escolhas irrefletidas, dominadas pela força de um complexo. Não nos notamos enceguecidos pelos mesmos desejos de sempre, que nos consomem ano após ano, muitas vezes sem se tornarem concretos. Recaímos neles como se nos puséssemos a querer ouvir apenas a mesma faixa do disco. E a vida vai passando diante de nós sob o sentimento insuspeito de impotência e ausência de escolha consciente de nossos destinos.

Tão tomados pelas próprias paixões e pelos preconceitos mal contados, permanecemos acorrentados de ponta cabeça, como se fôramos o ‘enforcado’ lá dos arcanos do Tarot. Pendurados em nossos próprios conceitos, temos o sangue forçado para nossa cabeça, a fim de que reflitamos melhor. Entretanto, não estamos presos de fato, mas, na ilusão dessa prisão, iluminada pelos fogos de artifício atiçados nas promessas vãs que fizemos a nós outros.

Acompanho inúmeras histórias de vida em meu consultório todas as semanas. Problemas reais, questões agigantadas pela falta de estrutura em enfrentar a vida; anseios, faltas. Descubro tesouros nas pessoas as quais acompanho, ao mesmo tempo em que, em outros casos me vejo assistindo ao romper de uma crisálida. Indubitavelmente, aprendo com tudo isso; são meus espelhos diários da mesma maneira que sou o deles. Apenas, porém, em poltronas diferentes. Tão humanos somos, entretanto, eles e eu, que o caminhar dessas almas acaba fazendo parte do meu próprio.

Cada um de nós em seu vagão pessoal, em sua página, por vezes sem marcador e com caligrafia borrada. As rasuras, as marcas de borracha e as gotas de lágrima compõem o corpo desta obra tão nossa. Todavia, nós que aqui vivemos, precisamos ter a concreta ciência da finitude e do curto espaço que é viver, para não desperdiçarmos mais tanto nossa oportunidade.

É preciso pegar o vagão que nos leve aonde o nosso coração está, mas é necessário também colocar o bom senso e a razão na compra deste ticket. As melhores escolhas levam em conta uma e outra coisa. Segundo os sábios da cabala, o ano vindouro é o ano do ‘Papa’, arcano ligado à vocação e à confiança. Esgueirando-nos das questões místicas relacionadas com esse tema, apenas ressaltamos a necessidade de nos guiarmos em consonância com o Self. Ouça a voz de seu silêncio e dê significado à sua estrada. Esteja mais presente para que não lhe surpreenda o aviso sobre a prossima fermata (próxima parada) e, em ordem de se permitir ir ao encontro do si mesmo, não deixe novamente para o ano que vem que você deveria ter feito no ano passado.

Feliz Ano Novo!



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h27
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FALÁCIAS VORAZES

 

Um paciente me disse que estava querendo encontrar alguém pela Internet e que deveria pôr um anúncio um pouco mais meloso e diferente do realmente escrevera, pois, caso contrário, ninguém se aproximaria. Eu lhe questionei se, gerando um personagem diferente do que ele costuma ser, ele não atrairia justamente o que não lhe seria desejável numa relação. Olhe com clareza essa situação e sinta se isso não configura bem o que acontece. Costumamos nos ligar a personagens criados para nos atrair, fisgando-nos pelos nossos sonhos, desejos e anseios. Acho ótimo que os tenhamos e acho melhor ainda que estejamos preparados para encontrar pessoas reais num mundo real, desenvolvendo a capacidade de vivenciar as nossas relações num nível mais amadurecido.

 Percebo que a maioria das pessoas está desejando alguém que venha lhe resgatar do poço de sua incapacidade de conviver consigo mesmo e de ser feliz independentemente do que alguém de fora lhes oferte. Relacionamento saudável não depende só do amor, mas de uma administração sábia de semelhanças e diferenças, onde se busca, com atuação recíproca, compatibilizar sem anular-se e sem acusar ou cobrar. Se há algo que você pode fazer por essa relação é olhar mais para dentro de si mesmo e começar a avaliar-se com um pouco mais de honestidade, cotejando os seus atos, sentimentos e pensamentos com o que você é capaz de perceber no outro. Sobretudo, desenvolvendo um olhar mais crítico sobre quem você é de fato e o que você faz.

Comece a investigar o seu grau de comprometimento e maturidade dentro desse contexto, tentando inteirar-se de sua situação dentro dessa relação e qual o seu grau de dependência ou autonomia, de concessões ou exigências.

Busque mensurar na sua balança íntima, com um pouco mais de justiça e imparcialidade, o seu lugar dentro disso tudo e o lugar que o outro ocupa em sua vida, pois se você quer alguém para se sentir amado e desejado e olha para fora de si, está, certamente, mirando no alvo errado, pois essa pessoa é você mesmo. Ninguém jamais lhe fará sentir-se bem e feliz se você não estiver assim.

Você sempre encontrará uma insatisfação e algo faltando, pois nunca saciará essa fome e essa sede implacáveis. Pode ser que você seja um saco furado, por mais que alguém encha você de tudo o que lhe seja possível ofertar, você nunca se dará por satisfeito, pois olha tanto para as próprias necessidades que não é capaz ainda de valorizar aquilo que realmente importa receber.

Acredito que assumir a nossa cota de responsabilidade nesse processo nos dará uma clareza de pensamento e uma leveza muito maiores do que podemos imaginar. Será muito bom poder visitar o nosso mundo interno, povoado de fantasmas, e sair de lá libertando um deles para a luz da consciência.

Essa coragem de enfrentar a própria escuridão vai desenvolvendo uma independência interior muito enriquecedora, além de nos preparar para cenários mais coloridos e agradáveis nos campos do amor e do sentimento humano. Tenho certeza que, quando nos propusermos a abrir certas algemas que nos prendem a crenças limitadoras acerca das relações, poderemos, finalmente, experimentar uma gama maior de felicidade e satisfação, desatrelando o outro da nossa capacidade de sermos felizes e realizados como pessoas, indivíduos. Não apenas isso! Eu estou convicto também que, livres para sermos quem somos, em nossa jornada de autoconhecimento, libertaremos os outros para que possam desvestir-se espontaneamente e sem medo dos personagens que ainda atropelam a verdadeira capacidade de relacionar-se.

Lembre-se de que não é o outro que nos enriquece, mas a nossa relação com ele, aquilo que é construído através da união dessas duas polaridades, que se atraíram para desenvolverem-se mutuamente e tomarem consciência de sua própria totalidade, manifestada nas mais variadas facetas que se possa imaginar. É através dessa troca que nos apercebemos de quem somos e dos nossos potenciais. A grande escola transformadora de crianças emocionais em adultos amadurecidos na capacidade e na consciência de viverem o que são sem que, com isso, precisem ferir, trair ou mentir uns para os outros. Pelo contrário, trazendo à tona todas as coisas realmente importantes nesse contínuo processo de crescimento, que é uma relação, e atualizando-se e aos seus parceiros das necessárias adaptações, em tempo real, sem acúmulos e sem receios.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h26
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TROCA DE ESTAÇÃO

 

Com o passar do tempo, é muito comum percebermos o quanto as relações vão se modificando, não raro, se tornando mornas e destituídas de faísca. Creio que entendemos que tais mudanças nos impactam diretamente, trazendo afastamento do outro por conta da maneira com que nós as avaliamos em nosso mundo íntimo. Ocorre que, nem sempre avaliamos nossa convivência ou rotina ou o que você desejar chamar de uma maneira prática.

É certo que existem coisas que realmente tornam bastante insípida e tristonha uma relação e quanto a isso não restam dúvidas. Uma coisa, entretanto, me faz refletir sobre o outro lado dessas mudanças, que vão acontecendo devagarinho e se configurando de uma maneira mais definida, bem depois que já houve muito desgaste de ambas as partes. É de senso comum que todos os seres viventes sofrem mutações ao longo de suas vidas. Nos seres humanos, dotados de sentimentos e raciocínio, esse movimento de transformação é ainda mais engenhoso e complexo, tendo em vista que vai trazendo consigo novos critérios a serem atendidos, novos desejos, conteúdos que antes eram inconscientes que passam a permear o ego, gerando-lhe novas percepções, nem sempre tão agradáveis e assim por diante. Os próprios sentimentos vão se desenvolvendo de uma maneira que burla o querer e as promessas feitas, assim como aos sonhos. Através do intercâmbio com outras pessoas e, claro, dentro de uma relação mais íntima, esses processos cumulativos vão ganhando uma força sobre a qual não temos ainda uma noção muito clara.

Na verdade, a relação muda porque as pessoas inseridas nela, aqueles que a vivem, mudam também, não obstante não o percebam sempre com essa clareza de consciência. Suponha que você tem um amigo que não vê há um ano. Quando se reencontram você ainda tinha dele a imagem formada de um ano atrás, tanto fisicamente quanto comportamentalmente. Não raro você dirá: “Puxa vida, como ele engordou... e o pior nem é isso. Veja como ele está diferente, não sei o que fez ele ficar tão diferente do que era.” Por outro lado, ele poderá pensar o mesmo de você. Todavia, para aquelas pessoas com quem ele convive, essa percepção não ficou assim tão clara, uma vez que acompanharam o fato da mudança sem perceber que ela estava acontecendo, pois a cada grama de aumento de peso ou a cada nova atitude, diferente da original, não se fazia claramente perceptiva, pois acontecia comcomitantemente com a convivência.

Será muito importante avaliarmos que uma mudança nem sempre quer dizer piora, ainda que, em alguns casos o seja mesmo. Se você desejar lançar um olhar sobre essa questão, talvez note que também ocorreram mudanças em você. Experimente comparar atitudes suas de um ano ou dois atrás com as de hoje. Há um outro fato a considerar nessa questão: existem pessoas que se agarram tanto à idéia do “será sempre desse jeito” que não acompanham as mudanças do parceiro e crêem piamente que aquele sentimento e aquela relação serão sempre daquela mesma forma, o que é lastimável pois estacionam num passado que não vai mais voltar.

Tente observar o que de positivo foi agregado à sua relação. Quem sabe você consiga sentir que hoje existem menos máscaras que antes, haja vista que a própria intimidade foi se encarregando de revelar o seu parceiro com a sua humanidade. Não se iluda você também, de que ele não tenha percebido as suas características sombrias. Esse fato, se for observado pelo ângulo da revelação, poderá gerar muito mais aproximação e respeito para aqueles de nós que optarem por um pouco mais de realidade. Você poderá entender isso quando notar que está querendo que os outros sejam o que nem você é capaz de ser o tempo todo, por mais que você pregue o contrário. Ninguém é príncipe ou princesa encantados o tempo inteiro. Isso não é possível, uma vez que temos contrariedades, temos incompreensões, temos emoções como raiva, ciúme, medo, tristeza, assim como amor, alegria e otimismo. Sendo um pouco mais realistas poderemos ultrapassar a barreira ilusória das crendices sobre o amor, a fim de sairmos um pouco mais do mito de que ele resolve todo e qualquer problema.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h26
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PARASITAS

 

Nas calçadas do cotidiano, não é raro encontrarmos pessoas curiosamente talhadas nos vieses do caráter desestruturado. Seria curioso entrevistar-lhes sob um soro da verdade e imagino qual seria a sua fala para nós, seus interlocutores... Ou seus espelhos. Quem sabe se definiriam mais ou menos assim:

Posso ser daqueles que, aproveitando uma brecha da necessidade, monto no pescoço de qualquer um incauto, que se habilite em oferecer ajuda e conforto à minha alma carente de auxílio. Ao contrário de alguns, preferirei ter sempre você aqui e prolongarei sua estadia tanto quanto me seja possível, não porque goste de depender, mas porque gosto do que é fácil. Sou preguiçoso se você não notou, mas ninguém precisa entender dessa forma, posto que eu saberei gemer e reclamar, sofrer e chorar e farei com que você sinta culpa e piedade de meu estado e se ponha a me ajudar até que eu esteja de pé outra vez.

Caso você me considere um parasita desprezível, cabe a mim lhe explicar que amizade é para essas coisas. Logicamente, na minha vez, tratarei de dar algumas boas desculpas, com um repertório respeitável de excelentes justificativas, para não lhe atender quando você precisar de mim e você saberá que somente não faço porque não posso. Inclusive, criticarei quem não auxilia os outros e me zangarei com essas pessoas pelo absurdo da falta de caridade com alguém que precisa numa hora dessas!

Como lhe disse, não sou parasita: apenas usufruo daquilo que me oferecem, até porque, ninguém é obrigado a me ajudar. Pode até ser que eu me ofenda um pouco com quem não faça nada por mim; afinal de contas, sou humano e nem sempre compreensivo, ainda mais no estado de carência em que me encontro.

Ingrato não, independente; Preguiçoso não, carente!

Do lado de cá do espelho, todavia, enxergamos duas facetas opostas e unidas por um nó bem apertado: o poder.

Na primeira situação a perda do poder elicia um estado de vaidade, culpa e frustração e é compensado pela avalanche de críticas perfeccionistas e pretensiosas. Na segunda, a manipulação se alia à invalidez voluntária e ao oportunismo, alimentando uma posição infantil e regressiva.

O pêndulo da vida gira, entretanto, e fará com que percorramos invariavelmente os pólos das sensações e das diversas situações, para que aprendamos a desenvolver uma função transcendente, capaz de solucionar o enigma do equilíbrio aqui proposto.  Posto que sou submetido à falta, dela necessito para desinflar. Quando sou seduzido pela facilidade uterina, dela necessito me desvencilhar para entrar na adultez e desvestir-me das roupagens filiais e aproveitadoras, as quais me castram sem que eu o perceba.

O tolo precisa do malandro, a vítima do perseguidor, o mártir necessita sentir-se sacrificado. Da mesma forma aquele que se acha muito bom precisa de quem lhe provoque o mal; quem se acha muito justo, cairá nas malhas do direito de sentenciar; quem se sente o último diamante lapidado sobre a terra, será submetido à prova compatível com a dureza desse material até que se aquebrante o excessivo amor próprio.

Dependência não se constrói em relações de ajuda, assim como independência não está lastreada em individualismo. Entrar e sair da necessidade requer maturidade e traquejo de alma para não resvalar em pressas inoportunas ou lamentos excessivos. Vestir-se e desvestir-se do lugar de cuidador também requer a mesma acurácia e, sobretudo, sensibilidade, visto que o ato de dar requer muito mais habilidade que o de receber. Empatia somente se constrói em experiências vividas e registradas com a lucidez de quem sabe o que foi um dia precisar de alguém. Toda a previdência do mundo não nos isentará do lugar de necessidade, em algum tempo.

É nesse movimento de subida e descida, de inflação e alienação, que vamos construindo uma estrutura de humanidade sedimentada menos em julgamento e mais em observação e espera. Os anjos que perderam a graça tiveram suas asas cortadas e caíram sobre a terra caminhando entre os homens, conta o mito bíblico. O maior de seus pecados foi a arrogância e a inveja. Pior do que anjos caídos são os homens que já se julgam anjos e tentam colar com cera as penas que nunca lhes pertenceram.

Por sobre o reflexo do mar e abaixo do sol fustigante de poder, a brisa relembra a Ícaro que ele não deve nem voar próximo em demasia das alturas e nem rente às águas, caso contrário cairá.

Ele não deu atenção ao aviso. Será que alguém dará?



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h25
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NECESSIDADES IMPOTENTES

 

 

Asas cortadas frustram qualquer um que já conheceu certas alturas.

Por uma via ou por outra, o ego precisa descer dos patamares fictícios, sobretudo quando eles lhe distanciam do mundo, a fim de que se reintegre em sua mortalidade e reconsidere suas limitações ante alguma impotência, seja ela momentânea ou duradoura.

Debater-se nas margens do limite pode gerar hematomas psíquicos e dor moral. Querer e não poder estoura as bolhas de qualquer taça de champanhe, principalmente quando seu dono não aprendeu a aceitar que o que é finito por natureza é passível de se esvair.

O pior da dependência repentina é perceber que não há ninguém por perto para lhe apoiar. Decerto, quem planta vai colher fruto condizente com a semente que atirou ao solo. Pode ser decepcionante ver-se solitário, particularmente, quando não é possível contar sequer consigo mesmo.

Entretanto, a dependência nos revela os verdadeiros amores e os companheiros de jornada. Revela-nos também o grau de sensibilidade do outro em relação à nossa necessidade e nos põe em contato direto com a importância de saber ser grato. A posição de receber pode ser, por demais, incômoda para o ego inflado, sobretudo se ele se concebe auto-suficiente e independente em demasia. Nesse lugar, a gratidão será látego que machucará seu orgulho, posto que, em sua leitura reduzida das coisas, receber é precisar e isso parece ser indício de inferioridade.

Ainda no viés dessa personagem interessante, consigo avaliar outra fabulosa possibilidade de descoberta: o nosso grau de confiança nos outros. Claro! Eu precisarei de muitos para fazer o que sempre fiz sozinho. Se desenvolvi um excesso de individualidade ou um olhar inflado sobre mim mesmo, ainda que, de fato, eu tenha alguma excelência e cuidado no que faço e na maneira com que conduzo meus afazeres corriqueiros, como lidarei com os outros fazendo, de sua própria forma e jeito, aquilo que somente eu fazia por mim e que considerava tão bem feito? Não raro me tornarei exigente, impaciente e com um grau de intolerância que preferirei camuflar com um ‘sou meio chatinho para essas coisas’.

O fato é que, estarei deveras incomodado porque você é diferente de mim e faz, à sua maneira, o que eu preciso, mas não posso executar. Ingrato e impaciente, torno-me um antipático porque dependo de você e me desgasto, com antecipada preocupação, com o resultado final dos eventos.

Nessas horas entendemos, na pele, o quanto é mais fácil estar na posição de ajudar do que na de receber, até porque, naquela, eu faço o que quero, porque quero e como acho que deve ser, sendo, além de tudo um lugar superior, do ponto de vista do ego. Então, logo tratarei de não mais incomodar a ninguém e retornarei a dominar as rédeas de minha vida, haja vista que é insuportável depender e aceitar o trabalho das mãos alheias, com gratidão, se não possuo humildade e pobreza de espírito.

Por outro lado, com tantos espelhos à minha volta, fica fácil perceber o quanto sou capaz de ser intransigente e vigoroso em minhas exigências, raramente satisfeito se alguém desliza um milímetro daquilo que tracei. Se fora eu quem estivesse executando tal afazer, certamente este sairia muito melhor e mais perfeito ou, pelo menos, não gastaria tanta energia preocupado se você quebrará o próximo vaso que mudar de lugar.

Nessas horas o meu e o seu ficam tão confundidos pela necessidade, que acabo me submetendo ao gesto de permitir que você me ajude, não sem lhe criticar de vez em quando. E, se sou muito diferente de você, sentirei dificuldade em entender a sua lógica e como funcionam as gavetas de sua cabeça, uma vez que, externamente, você usa as minhas de forma diversa da que eu o faria, o que me deixa louco. Se nos amores existem os envolventes e os envolvidos, aqui existem os invasores e os invadidos. Claramente, entendo que você somente deseja me ajudar, mas torço com todas as fibras de minha alma que eu logo melhore, pois já me tornei cheio de manias e não consigo manejar minha vida pelas mãos de terceiros. Quero apenas a minha independência de novo e a liberdade disso decorrente.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h24
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CARENTE SALVAÇÃO

 

Às vezes é importante refletir o quanto passamos nossas vidas tentando ser algo para os outros, nos descuidando de nós mesmos. Isso nos leva a também imaginar o quanto outras pessoas passam as suas vidas aguardando outros que as transformem em indivíduos realizados, pagando preços exageradamente altos para obter migalhas insuficientes para alimentar um pinto. A desnutrição que essa situação propõe é da ordem do ressecamento de nossa alma. Se secarmos, nada mais floresce em nós. Se entendermos que isso é obra do outro, engrossamos a fila das vítimas infelizes.

Por outro lado, se nos atribuímos o lugar de salvação, quer por vaidade, por desejo de poder, ignorância ou mesmo por romântica bondade, inclinamos a nossa carótida para a mordida do vampiro insaciável, ao tempo em que nos atrelamos a uma rédea difícil de desatar, pois ela, sob certo aspecto, é também sedutora ou não sabemos valorá-la devidamente a ponto de abraçarmos tal situação como força do destino e ato altruísta.

A carência precisa da independência para ser ajustada e curada, assim como o simples precisa do complexo para desenvolver-se. Do mesmo modo, a independência precisa da carência para não resvalar no individualismo excessivo, assim como o complexo necessita do simples para aprender a ter foco e a partilhar com justiça.

Em todo caso, tanto na engenharia quanto no maquinário do psiquismo, edificar uma existência sobre um único pilar equivale a dar um prazo de validade àquela construção em nossa vida. A totalidade é quaternária. Implica em lidar com as dimensões primordiais aonde devemos acrescentar ao ‘eu’ e ‘você’ a necessária separação do que é real e do que é imaginário, dos limites pertinentes ao humano, do fato e da possibilidade e, de uma maneira muito incisiva, diferenciar que, desejo e satisfação, passam por escolha e arbítrio de todos os envolvidos. Nossa totalidade precisa apreender o ‘eu’, o ‘outro’, o ‘coletivo’ e a ‘alma’.

Quando me construo sobre você, doto-lhe do poder de conduzir minha vida ou conduzo a minha vida na intenção precípua de lhe cativar a ela. Portanto, tento lhe dominar. Quando aceito a proposta de carregar em meus ombros a sua felicidade e a responsabilidade pela satisfação de seus desejos, caio na armadilha da vaidade narcísica e cavo um canal obscuro de frustração e culpa sem fim, cuja saída é optar por frustrar você ou compensar o que me nego em seu favor, traindo-lhe sob algum aspecto.

Se sou capaz de ser eu mesmo e permitir que você o seja também, por conseqüência também consigo fundamentar minha vida numa base de respeito e reciprocidade espontânea e, tudo aquilo que eu fizer por você e para você, terá sido simplesmente porque esse é o meu desejo, sobre o qual me responsabilizo, inclusive sabendo que isso é passível de não ser retribuído.

No narcísico somente existe relação enquanto existe a sensação de estar sendo olhado, mesmo com desgosto. O narcísico não sabe ainda o que é amor, muito embora acredite saber e se julgue o maior dos amantes. No fundo, ele quer ser adorado e orbitado. Quem rompe sua gravidade abre-lhe uma ferida insuportavelmente dolorosa.

Assim será até que não reste um caco de espelho e ele possa, enfim, olhar a própria alma...

Na calada da noite, o ego, tristonho, afaga as estrelas com o olhar e lança ao infinito uma pergunta: - Quem quer hoje dormir comigo?

E o Universo, impassível, lhe deixa sem eco, pois essa é a forma mais amorosa de lhe mostrar que o ‘dar’ só tem retorno genuíno quando é a alma quem oferta.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h24
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PILARES RACHADOS

 

 

Ele se debate no calor da noite, tentando conciliar seu sono e os atormentados pensamentos que lhe perpassam a mente. Não há quietude ali naquele instante. Fervilham idéias contraditórias e incertas. Aliás, certeza é um tipo de produto que é raro hoje em dia, muito embora, por bom senso, entendamos que nunca existiu garantia em relação a quase coisa alguma, exceto a morte.

O chão é minado e ele não sabe quando será a próxima explosão e nem se a suportará. Na verdade, ninguém precisa habitar campos minados quando se pode preferir a paz, mormente existam aqueles que prefiram a adrenalina das pendulações. Se você não sabe mais o que dizer ou não se sente mais com repertório sobre o que fazer, qual será a alternativa mais adequada? Omitir ou quebrar? Qualquer que seja a escolha haverá prejuízo e ganho, não necessariamente na mesma proporção e intensidade.

Quando o lugar de adoração transforma-se em tormenta e pressão, mesmo o mais narcísico tenderá a sentir-se sufocado e afogado num caudaloso rio de cobranças que lhe deflagram sua flagrante incompetência, ainda que ela seja, em alguns casos, projetiva. Por certo, quando um espelho encontra outro, ambos podem tender a secar e morrer ou, de uma maneira mais pragmática, qualquer coisa que possa ter florescido naquele terreno raso, morrerá pela secura dos reflexos mal pagos.

Na construção da individualidade é preciso atravessar certas provas calcinadoras, com o fito de refinar o terreno da transformação e diferenciar o que antes era o caos. A incipiência original do ego lhe confere uma inocência romântica, mas egocêntrica. O desejo de pertencer ao centro das órbitas acaba por destroçar grandes possibilidades de crescimento, visto que o chicote da inferioridade dilacera a tênue pele do inseguro e ele desconta isso no espelho mais próximo, sobretudo se ele não lhe confirmar a beleza.

Se ainda me encontro na estruturação de minha identidade no mundo e da consciência de meu eu, tendo a escolher os pilares sobre os quais elevarei o meu prédio, optando pelo vaso que mais se aproxime, na minha visão, do meu ideal projetado de segurança e perfeição. Talvez eu não leve em consideração o peso que coloco sobre os ombros desses outros a quem atribuo a possibilidade, senão o dever, de me fazerem feliz e completo.

Não sabendo disso com a devida clareza, torno-me tirano e insensível, egoísta e manipulador, muito embora me considere cheio de amor, de bondade, de caráter e de virtude. Faço com as mãos e desmancho com os pés. Peço desculpas depois de minhas mancadas e creio que tudo deva ficar bem imediatamente após isso, pois, já que sou humildemente imaturo, o outro deve compreender meus erros e me perdoar indefinidamente, sem que eu faça algo concreto para essa reconstrução; como bom egocêntrico, ainda aí, tendo a esperar que a redenção venha até mim. Porém, os vasos que se quebram repetidamente não conseguem ser inteiros nunca mais. Cacos quebrados colam, mas o vaso não tem a forma original e se torna frágil a cada nova queda.

Tanto o amor em excesso quanto a sua escassez ajudam a criar uma ferida narcísica na alma. O Self acaba não se estruturando adequadamente e, uma vez que relação primordial no eixo mãe-filho está comprometida, o psiquismo tende a buscar compensá-la e curá-la projetando essa figura ressequida em qualquer um que possa lhe ser um receptáculo. Isso implica em dizer que faço do outro a minha salvação e a minha referência, pois a referência original, que deveria ter gerado um ego saudável e forte, não se solidificou. Transformo você em meu pilar e construo sobre você os planos e as expectativas de minha vida. Fico com você por necessidade e medo de me perder, não por amor, pois em você tento enxergar a mim mesmo.

O outro, convertido em pilastra de sustentação acaba por carregar o fardo, caso o aceite por culpa, senso moral distorcido ou algum outro motivo psíquico. Cedo ou tarde, por conta das rachaduras causadas por tanto peso concentrado, poderá ruir, não somente com os planos alheios que lhe foram imputados, mas também pelo fato de que não recebe a projeção do amor, mas do dever. Sorrateiramente, constrói-se nele um receio crescente de confrontar outra vez com os apontamentos daquele que se lhe tornou espelho de sua incapacidade de fazer alguém feliz. Ele cairá nessa armadilha se acreditar, de fato, que possua algum poder de levar ao outro àquela felicidade que somente o indivíduo é capaz de produzir, quando de seu encontro consigo mesmo.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h23
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PERTENCES BANIDOS

 

Se cuido demais das minhas mentiras, descuido das minhas verdades essenciais. É por isso que se faz imprescindível fazer amizade com o inconsciente e passar a prestar atenção em suas mensagens. Esse mensageiro, quando retaliado, tem um poder de fogo inacreditavelmente desconcertante e nos tratará da mesma maneira, atuando em nós à revelia.

A alma humana deseja ser conhecida. Todavia, longe da angelitude idealizada, ela precisa ser vista em sua magnanimidade e em sua vilania. Somente depois de nos aproximarmos amorosamente dessas duas metades é que poderemos transcendê-las para algo acima delas. Um lugar onde não se faz necessário ser alguma coisa diferente daquilo que somos e onde a orfandade encontra berço e descanso.

O vilão é o espelho do mocinho, assim como a racionalidade deve complementar o instinto. Somos matrizes carregadas de poderes que nos designam para uma destinação maior que as escolhas do ego, do aqui e do agora. Contudo, sem o aqui e o agora, não temos como alcançar o contato com esse daemon que deve nos dirigir para nosso fim maior.

Sem os vilões não haveria desafios para os heróis. Todo aquele que enceta a superação precisou primeiro da queda para iniciar tal jornada. Quando transformamos nossas vidas numa redutiva análise de porquês rasos e imediatistas, aonde apenas enxergamos a arquetípica luta entre o Bem e o Mal, não somos capazes de nos dotarmos de sentido; eles são companheiros de armas.

Muitas vezes o vazio em nós consiste exatamente naquilo que não tivemos ainda coragem de integrar em nossa personalidade, pelo fato de que esses aspectos nos roubariam a falsa e ideal imagem que passamos a vida inteira tentando construir sobre nós.

Assim como aqueles que nos frustraram nos levaram ao descobrimento de partículas de nossa individualidade, precisamos aprender ao nosso turno, a devolver esse favor ao mundo, aprendendo quando e onde é necessário frustrar e cortar e de que maneira. Não perdoamos os que nos feriram porque não entendemos que eles apenas revelaram uma chaga que já existia em nós e que precisava de exposição. Os atraímos para nos oportunizarmos integração. Se os tomamos como maus porque escolheram nos trair ao invés de se traírem, não saberemos optar por nosso desenvolvimento e nossa felicidade quando a hora exigir de nós a traição da expectativa que alguém indebitamente depositou sobre nossos ombros e que aceitamos por vaidade e necessidade de existir, mesmo que nesse nível de servilidade aos propósitos alheios. Ainda nesse ponto, não integramos o que chamamos de “mal” e o projetamos e atraímos veementemente.

Não é que o mal seja uma questão de ponto de vista, é que nossa visão considera ruim tudo aquilo que não consegue abranger e decifrar. Para o ego, Bem e Mal são referenciados por aquilo que lhe causa prazer ou desgosto. Nosso maior vilão é nosso desejo de permanecer na ignorância, acreditando que isso é felicidade. Ela não está nas garantias, haja vista que a perda ronda qualquer coisa desejada que acabou de ser obtida; será sempre assim.

Não sabemos ainda que tudo é nosso e que nada deve durar para sempre, posto que a natureza do universo é mutável. Mudar com ele é evoluir graciosamente.

Ele suspira, meio lastimoso, diante de um caco quebrado de espelho, tentando se enxergar. Para nós fica a pergunta: ele sobreviverá se lhe retirarmos esse último simulacro de existência?

 



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h22
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VILÃO

 

Aquele que passou a vida inteira no lugar de adoração acostumou-se com essa faceira realidade e dela não consegue desvencilhar-se tão facilmente. É preciso entrar no lugar daquele que gera no outro um olhar oposto; é preciso aprender a ser vilão, ainda que essa vilania não pertença ao rol das grandes maldades.

O simples fato de obter do outro não mais a sensação de ser-lhe bom já fere a imagem narcísica que se vê debruçada diante de uma faceta sua que não consegue atender a si mesma, posto que, frente a alguém, não mais ocupa o posto de benfeitor, mas de frustrador.

Não lhe é tão simples lidar com a culpa de não sentir-se bom, já que esse lugar lisonjeiro e sedutor lhe garantia uma imagem perto do imaculado. Sentir-se mau para quem quer ser perfeito é o fim, a morte.

Diria que uma morte dolorosa e extremamente necessária se deseja deixar que seja consumido o narcótico com que se embriagou durante toda a sua vida e que, não obstante prazeroso, roubou-lhe a espontaneidade e o viço em todas as vezes nas quais foi-lhe negado pelo ‘não’ alheio.

A culpa também é lugar de superioridade. Substitui compensatoriamente a saciedade de ser bem visto pelo lamento de ter provocado dor em alguém e, logicamente, reflete a certeza desse indivíduo de que ele é o responsável pela felicidade de alguém e de que, por conseguinte, é dotado de algum poder.

Na intrincada rede dessas falácias, é como se pequenas mentiras fossem sendo substituídas por outras novas. De fato, parece que são verdades distorcidas, que precisam desenrolar-se no aguilhão da lesão do ego, a fim de que este se cure paulatinamente da sua ânsia por um lugar onde ele exista significativamente para alguém a fim de, a partir daí, existir em si mesmo. Desde que alguém esteja a olhar para mim, eu me alimento. A sua indiferença, porém, me tortura e me mumifica.

Todavia, se existimos pelo fato de nos vermos nos espelhos alheios, essa existência, ao que tudo indica, se resume a uma virtual dependência de que alguém nos reflita. Não existo porque penso, mas porque você pensa em mim ou porque você me vê, mesmo que seja no desgosto. Seus olhos, portanto, são o termômetro de meu bem estar, posto que, é a partir deles que me maximizo ou minimizo, oscilando num eterno pendular de humores e desejos; a partir deles eu ganho a gelatinosa consistência de seus juízos.

Não obstante, se em seu julgamento, pertenço à classe dos bandidos, não me conformo enquanto não construo uma forma de me livrar dessa sentença. Muito embora, para ele, ser visto, mesmo como vilão, já seja alguma coisa, a corrosão que isso lhe causa atua em sua neurótica necessidade de curar os olhos seus, a fim de que você se convença de que ele não é mau. Ou ele faz isso ou ele aceita a natureza de seu mal, de sua sombra.

À essa altura tocamos um ponto extremamente fustigante, que nos encaminha a mergulhar nessa zona abismal da Sombra. Aceitar a natureza do mal em mim me leva a começar a curar algum aspecto de meu narciso. Entender meus impulsos, nem sempre excelsos, facilita a compreensão de minha verdadeira natureza e expande minha noção de moralidade, quiçá elevando-a a uma visão amoral sobre a vida. Não obstante isso, tal aceitação, oblíqua de início, me deixa encurralado na necessidade de avaliar minhas limitações e encarar minhas necessidades, sobretudo aquelas que me levam a não ser espelho para você, mas a tornar-me tão aparentemente independente, que quase eu mesmo começo a acreditar nisso.

A honestidade com que nos habituamos a observar nossas fraquezas e limites ainda é frágil e descuidada. Quem está acostumado a encontrar respostas e explicações para quase tudo, habituou-se também a desenvolver certas estratégias para furtar-se aos ditames das verdades que teima em não enxergar sobre si mesmo. Por conta dessas defesas bem construídas, o Self acaba por nos pregar peças inacreditavelmente fascinantes e cruéis, exatamente para nos levar ao desmascaramento. Se ele tivesse uma cara, certamente riria de nosso desapontamento ao nos percebermos ruindo diante de mentiras bem construídas, depredadas pelos fatos da vida, aos quais somos submetidos para a sua cura.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h21
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ELES E EU

 

As relações construídas entre o ser e o coletivo perpassam pelas dinâmicas de poder (implícito ou explícito), manipulação, desejo e cegueira individual e social. Uma força de escravização silenciosa e subjetiva, ao mesmo tempo dialética conosco mesmos, que nos instiga e direciona para onde, como e o que o ‘eu’ deve (ria) fazer, olhar, buscar... Uma simbiose sedutora.

Cabe-nos questionar o que ‘eles’ significam para nós e em que lugar de nossa existência eles acabam por povoar as nossas direções, frustrações e quereres. Esse olhar para ‘eles’, ainda que seja indignado e crítico, pode não ser suficiente para arrumar uma questão crucial, que pede retorno para o lugar que sou, donde sou ainda influenciado, mas que precisa de ampliação e sentido pessoal, na medida em que atribuo significação à dialética que estabeleço com o externo, um reflexo, não raro, daquela que construí comigo mesmo.

Imersos no oceano social, certamente acedemos, um sem número de vezes, à esses chamados coletivizados. O processo de construção de identidade formula várias questões, dentre elas: ‘Quem sou?’; ‘Que valor atribuo a mim e ao outro?’; ‘Qual o meu desejo real?’; ‘ Que tenho feito para estar como estou?’ e ‘Que quero fazer quanto a isso?’ – esta última, para mim, extremamente importante e fundamental.

Como tornar-me mais autêntico sem desenvolver consciência de mim? Como lidar com essa autenticidade de permanecer na vida coletiva sem me perder de meu projeto pessoal? Aliás, a questão de perceber qual o projeto pessoal toca um ponto nevrálgico de minha constituição e daquilo que representaria uma expressão mais saudável e mais próxima de minha essência, que também precisa ser desengavetada das cortinas velhas sob as quais a escondi, normalmente ser ter me apercebido disso.

Tal fato implica no desenvolvimento da capacidade de discernir e escolher com liberdade, levando estas escolhas para o âmbito da ação responsável e lúcida – o que pressupõe uma intencionalidade em estar no mundo. Implica também na capacidade para aceitar a condição humana com honestidade, criando possibilidade de confrontamento com a ansiedade natural e pertinente ao viver, tal qual isso se mostra, ao tempo em que, se abre para escolhas de um futuro com menos culpa e mais inteireza.

Sem escolha não acessamos o centro da existência. A verdade é que estamos fadados a escolher, mesmo quando achamos que nada escolhemos. Seguindo esta linha, entendemos que um fio de vida perpassa nossa história pessoal e se lança para além, formulando a idéia de projeto. Mas, até que ponto realmente projetamos se, por muitas vezes, nos sentimos acuados (sobretudo pela maneira com que vemos, interpretamos e percebemos a realidade)? Quanto mais acuados menos coerência pessoal esse fio é capaz de ter, perdendo contextura e fibra. Tornamo-nos distanciados da referência interna, uma que reflita em nossa história, em nossa designação, aquilo que, até surge em nosso discurso, mas não conseguimos viver...

Por questões como essa se torna fundamental formular compreensão ajuizada acerca das experiências e associar a isso aspectos como amor e criatividade, espontaneidade e clareza. A tarefa de dar sentido à própria vida obriga-nos a arrancá-la das mãos dos outros e assumir a individuação, atuando sem conformismo perante encaixes pré-fabricados e nos retirando dos estereótipos. Dessa maneira, é conferido à existência individual um caráter de singularidade e totalidade.

Por outro lado, na medida em que desenvolvo esse senso de ‘quem sou’, é preciso sedimentar a construção no mundo, atentando para a pluridimensionalidade dessa questão. Explorar essas dimensões implica-nos num estar conosco mesmos sem o abandono da existência nestas dimensões externas, formulando uma conexão contínua de significação física, inter-subjetiva, psicológica e transcendente; isso nos põe defronte do propósito em si – confrontando as tensões e dualidades inerentes a todos esses aspectos.

Diante de tais dimensões e tensões, é necessário nos confrontarmos com os dados da existência, face à insegurança, as frustrações e perdas, assim como dos desejos, das esperanças e da auto-realização. O indivíduo, poeticamente anestesiado, precisa dar-se conta e aprender a administrar e significar esses dados, fazendo contato com a finitude e a morte, com a liberdade e a solidão, assim como a falta de sentido, oriundas da experiência do vazio e do desespero, que tantas vezes nos visita. A própria ansiedade em si é um dado do nosso existir, do qual muitos de nós tentamos fugir entregando placidamente nossas vidas nas mãos ‘deles’, com a falsa idéia de que esse anestésico funcionará eternamente ou sem ciência do alto preço que nos custa deixar de questionar: ‘Quem eu sou?’



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h21
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COAGULATIO

 

Lesado, ele afunda num mar de águas profundas a fim de decompor tudo aquilo que cristalizou ao longo de anos de ilusão. É preciso dissolver as fixações e os embaraços e isso não acontecerá sem ser seqüestrado para as suas zonas mais fundas e mais densas. Convidado ao fundo do poço, precisará aprender a paciência para resistir ao tempo natural das coisas, abraçando a impotência que naturalmente nos visita nessas épocas. Considero, porém, ainda que torturante, essa impotência como uma força criativa, capaz de colocar algumas coisas nos seus devidos lugares e reajustar valores preciosos para a estruturação dos fragmentos desse ego. É um freio psíquico para ajustar desvios e desmedidas. Sair do ‘métron’ gera a atuação de Nêmesis, a executora da Justiça Divina.

A lesão, portanto, vem como medida de alinhamento e requer tempo para ser curada. No psiquismo esse tempo é tanto maior quanto mais profundo essa ferida tenha atingido e, sobretudo, quão despedaçado foi esse ego ao ser lançado ao seu próprio caos.

A complexidade desse momento requer um olhar bem mais simbólico, posto que as obviedades do saber humano não têm como informar a rota exata para a reconstrução do equilíbrio; é um trabalho de salvamento dos escombros. O inconsciente, todavia, envia formas de auto-cura, imagens transformadoras que, lentamente, são capazes de coagular material suficiente para recompor os ossos quebrados. Eles precisaram ser quebrados antes, é verdade, pois estavam atrofiados.

Entretanto se, diante do caldeirão, a nossa resignação nos possibilita a aceitação do inevitável, o inevitável passa a ser aceitável e paramos de opor resistência ao fluxo natural das coisas. Nem sempre fica claro para nós o porquê de certas ocorrências, o que somente descobriremos após atravessá-las. Não obstante possamos entender e aceitar algumas delas com mais facilidade, perante outras tantas, apenas nos resta um rendição diante de algo maior que nossa compreensão, simbolizado por elas. Um vaso maior é capaz de exercer continência sobre um menor. É assim que as consciências se ampliam e se tonalizam com experiências enriquecidas, substituindo lentamente as equivocadas.

Uma vez lá no fundo, já quase sem vida, ele terá de voltar à tona, porém menos ofuscado consigo mesmo. Talvez ele comece a conjurar outras formas de existir que não sejam aquelas baseadas no reflexo, no eco. Talvez ele entenda que somente a morte leva à ressurreição e a aceite simbolicamente, vivendo-a nesse nível e movendo-se adiante para outras descobertas ainda mais importantes.

Sou do parecer que, nessas épocas de nossas vidas em que somos inundados por águas obscuras e traiçoeiras, mormente aquelas derramadas pela inflação de nossos egos ou por outra afecção qualquer de nosso psiquismo, ainda assim é possível sair ganhando algo. Não faz sentido ser engolfado pela Vida e dizer que tudo foi um capricho de Deus ou dos Homens. Nada nos acontece que não deva fazer sentido para nós mesmos e para o nosso processo de individuação, pelo simples fato de que nossas vidas falam de nós, nos denunciando e revelando o tempo todo. Enquanto crescemos e aprendemos a acionar a fênix em nós, nos desamarrando de velhos contextos e idéias, vamos entendendo também que crescer significa estar mais consciente do quanto a nossa vida, como um todo, afeta aos outros e escolher nunca deixar de afetar, fazendo diferença da maneira mais despretensiosa possível.

Algumas bolhas sobem lago acima. São os últimos alentos dele. No que ele se transformará? Como ele realizará essa transformação? Ainda é muito cedo para afirmar qualquer coisa. O certo é que, nesse ponto, ele descobriu que a Vida é sua aliada generosa e que não cabe recuar. Na beirada do lago, a Alma anseia por estender-lhe a mão, mas ela só pode fazê-lo se ele assim o pedir.

Silenciosa, ela mira o espelho d’água e lhe direciona, esperançosa, o desejo de saber sobre o porvir. Um pálido reflexo do amado irrompe aos seus olhos e ela entende que ainda é preciso esperar dissolver para depois coagular.



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h20
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SOLUCTIO

 

O vai-e-vem das ondas na praia não cessa. De longe, a brisa traz a solitude mais doída, como se fosse um atestado corpóreo de que há um espinho cravado na carne, com o qual é preciso conviver sem se queixar. Transcendê-lo e amá-lo como se fosse seu próprio salvador, justo isso que lhe retira do alcance dos anseios mais profundos. Os métodos crus da Vida embasbacam os egos impertinentes e arrogantes, ciosos de que seus desejos devem prevalecer... Mas não é assim.

Ele se debate no abismo. Resvalando, caiu no lago que um dia refletira sua imagem traiçoeiramente ideal, aquela que lhe levaria à morte, segundo Tirésias. Entretanto, é por morte que nasce a flor e que se desfaz o feitiço do inexistente, do primário e da identificação com o Self, com os atributos latentes. O lago é mais fundo do que parece ser. Escuro e anestesiante, ele suga a sua vida até a última gota, até que não sobre mais nada pelo que lutar nas instâncias imaginárias da fantasia. É como areia movediça, suave e envolvente - Por favor não se debata tanto, isso vai acelerar o seu sufocamento. É bem assim essa morte: Uma queda no obscuro vacuoso, onde não existe alento e aonde você se verá forçado a se olhar em decomposição para desconstruir qualquer forma que não lhe pertença ao verdadeiro ser.

Se falta ar para respirar, não há como expressar em palavras os pensamentos confusos dessa hora. Estamos destituídos de arsenal emocional, de repertório para atuar no desconhecido e nos resta permitir que ele nos leve em direção ao nosso destino. Os pavores são intensos, angustiosos. O amanhã já não parece despontar na madrugada e a sensação de que nunca mais veremos a luz outra vez é, de tal forma paralisante, que acreditamos piamente que nunca mais seremos felizes. Nesse momento recebemos a visita do desespero. Onde não há uma certa fé, não há possibilidade de florescer o único sustentáculo humano baseado no não sabido: a esperança. Ela parece ter morrido e o que resta é o peso de seu cadáver lhe dizendo que você é o próximo da fila.

Então, chega um instante em que, após misturadas as lágrimas sanguíneas com as águas profundas do afogamento, ele terá que encarar seu dragão, seu pavor, seu mito mais aterrorizante. Quanta pujança é necessária para sequer olhar a face desse inimigo nosso que nos colocou na masmorra das masmorras e nos escravizou, muitas vezes, a vida inteira, condenando-nos a orbitar em torno de um satélite sem vida, sem tesouros e sem rumo, que não fosse aquele ditado pela força de uma gravidade imperativa e cega?

Não obstante, nossos maiores medos, de certa maneira, são também nossos desejos mais poderosos, os quais nos imantam ao curto-circuito irrefletido das repetições e das defesas. Sem trazer esses medos à tona, sem quebrar a casca grossa sob a qual nos escondemos deles, infortunadamente nos veremos tendo que recomeçar a rolagem de nossa pedra de “Sísifo”.

Como entender essa matemática subjetiva que amarra nossas oposições? Como ajustar os pensamentos aos túneis que a alma nos convida a percorrer sem nos perdermos na noite escurecida da ausência? Ao descer no abismo, Ele, afogado, descobre seu maior pavor: não há espelho para ele lá embaixo!

Ver-se destituído de olhar, de lugar e de imagem perante o outro e perante a si mesmo desvirtua a essência que antes lhe correra nas veias, doando-lhe de maneira falsa uma vida intoxicadamente dependente e perecível.

O que restaria a essa instância, construída sobre o arcabouço da imagem, quando sua nutrição fundamental se mostra corroída? A bem da verdade, não é porque o outro não mais lhe veja ou sequer lhe perceba que ele desfalece em sofrimento acabrunhado. É pelo fato de que aquilo sobre o que ele supunha compor a sua imagem já não lhe pode mais servir de suporte ao espelho; ele descobriu-se humano e não mais que isso. Nem mesmo o maior dos aplausos humanos ou os julgamentos fugazes das qualidades serão capazes de sobrepor-se, naquele momento, a alguma brecha fundamental que ele descobriu em si ou que o Self deflagrou nele e que o tomou de um sentimento de incapacidade de espelhar. A amoralidade do Self é cruel quando se trata da necessidade de levar o indivíduo a ver-se a si mesmo. Sem isso, contudo, o processo de individuação não aconteceria e o ego, preso à imagem arquetípica, não se desamarraria da sedução que o cegava.

Ele morre para, então, renascer...



Escrito por FRANCISCO MASAN às 14h20
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